sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Pedro entre estatísticas - 05

‘Eu fiz isso’, diz minha memória.
‘Eu não posso ter feito isso’, diz meu orgulho,
e permanece inflexível. Por fim _ a memória cede".
Friedrich Nietzsche - Além do Bem e do Mal

Era sábado com cara de sexta de uma tarde de verão. Pedro havia visto a sexta virar sábado, mas era tudo tão parecido que aparentemente ainda era sexta, um dia longo. Levantando mais tarde que o normal e com a garganta seca de todo pós-sono, ou simplesmente hábito, correu para a geladeira antes de fazer qualquer coisa. Não havia apetite, talvez fosse o horário, não havia o que fazer, era sábado, talvez até tivesse, mas o rosto enrugado e embebecido de sono faria com que essas coisas fossem deletadas. Foi ao quintal e viu o quase por do sol, não havia forças para correr e ver o por do sol de fato, voltou e decidiu mexer em coisas velhas, ligou o som, abriu uma janela da porta que dava para ver a movimentação da rua. Os sábados de Pedro se caracterizavam por essa movimentação rotineira desse dia da semana, os mesmos barulhos e as mesmas pessoas, vizinhos. Decidiu ligar o som e ouvir aquele som estranho e dançar do jeito estranho que dava para ser visto através da janela aberta por quem passasse. Na faixa 2 do CD, a coragem de ajeitar a casa, cozinhar e curtir o momento encheu o corpo de Pedro. Não demorara, o fato de morar sozinho há bastante tempo, lhe dera jeito de arrumar a casa. Ao mexer em suas coisas antigas, encontrou um tapete, muito bonito, que ganhara de presente de uma grande amiga, nunca usou e ele tinha marcas e cheiro de objeto guardado há algum tempo. Ele sempre lembrava de usar depois da casa arrumadinha, mas desistia. Pedro começava a fazer suas coisas e o tempo todo algo chamava sua atenção num homem vestido de branco, num estabelecimento apertado do outro lado da rua, ele fumava bastante e mesmo quando não havia cigarro, ainda tinha fumaça circundando-o. Esse estabelecimento não era totalmente de frente a sua porta, o que existia um ângulo certo que dava para ver pela pequena janela, e se fazia grande toda vez que passava por esse ângulo. Aparentemente, havia também olhares do lado de lá da rua. Quando já estava na etapa final da sua tarefa, Pedro notou a imagem de um primo seu debruçado na janela. De início tomou um susto, mas depois, o convidou a entrar. E no mesmo instante, passou um filme em segundos, no meio tempo em que seu primo abria, passava e fechava a porta, ele pensou em estar feliz pela noite anterior, a importância da sua família – o que diz respeito a primos –, a necessidade de se relacionar com eles, de ímpeto, veio o pensamento que ele não queria receber visitas, adorava passar seu tempo sozinho e a necessidade de abrir a janela naquela tarde. Com isso em mente, cumprimentou educadamente o primo e sentiu algo estranho, uma espécie de raiva, de aborrecimento. Pedro sabia o que estava sentindo, não era a primeira vez, mas ele decidiu em todas às vezes ignorar e dessa vez não foi diferente, ele apenas adicionou uma dúvida cínica, de não querer conhecer a si mesmo e aquele sentimento. Olhou para o rapaz dos pés a cabeça e maquiou-se. Seu primo era gordo, muito gordo e dificilmente conseguia se controlar ao ver comida, era abobalhado ou apenas se fazia. Ele não sentou, foi à geladeira e tomou um copo com água, voltou à sala e ali ficou respirando fundo e recuperando o ar dos cinco passos à geladeira. Dialogaram brevemente entre perguntas e respostas breves. Pedro não parou em momento algum de correr para um lado e outro da tarefa, talvez pudesse ser uma forma de dizer ‘Estou ocupado!’, não funcionou. Em um de seus ‘vai-e-vem’, Pedro entrou no quarto e estava voltando para o quintal, foi quando viu que seu primo estava se dirigindo para lá também. Os móveis apertados e a gordura do primo dificultavam a livre passagem de Pedro e o bom desenvolvimento de sua tarefa. Ficaram os dois no quintal até Pedro ligeiramente ir ao quarto e na volta participar de um rápido acontecimento, onde ele ouviu dois disparos de um baixo calibre, sangue, seu primo ir ao chão e um movimento involuntário da barriga flácida dele. No mesmo instante, ele virou-se e estava justamente no ângulo certo que dava para ver pela janela o pequeno estabelecimento do outro lado da rua, viu o homem de branco, ainda de pé, mas agora apoiado com as costas na vereda de metal presa à parede onde descia a única porta de rolo do compartimento, havia um cigarro entre as mãos, mas Pedro só viu a fumaça, o que deixou-lhe mais confuso, parecia que o homem de branco olhava atenciosamente para dentro da casa. Em movimentos também involuntários, Pedro buscou o tapete que nunca havia usado para enrolar o corpo do seu primo, era pequeno e se tornou insignificante. Numa tormenta entre corpo gélido, sangue, crepúsculo, tapete insignificante, Pedro percebeu que agora fazia parte de um dado estatístico ruim, não sabia qual. E agora, quantas pessoas fazem parte de um dado estatístico ruim?