‘Eu fiz isso’, diz minha memória.Friedrich Nietzsche - Além do Bem e do Mal
‘Eu não posso ter feito isso’, diz meu orgulho,
e permanece inflexível. Por fim _ a memória cede".
Era sábado
com cara de sexta de uma tarde de verão. Pedro havia visto a sexta virar
sábado, mas era tudo tão parecido que aparentemente ainda era sexta, um dia
longo. Levantando mais tarde que o normal e com a garganta seca de todo pós-sono,
ou simplesmente hábito, correu para a geladeira antes de fazer qualquer coisa.
Não havia apetite, talvez fosse o horário, não havia o que fazer, era sábado,
talvez até tivesse, mas o rosto enrugado e embebecido de sono faria com que
essas coisas fossem deletadas. Foi ao quintal e viu o quase por do sol, não
havia forças para correr e ver o por do sol de fato, voltou e decidiu mexer em
coisas velhas, ligou o som, abriu uma janela da porta que dava para ver a
movimentação da rua. Os sábados de Pedro se caracterizavam por essa
movimentação rotineira desse dia da semana, os mesmos barulhos e as mesmas
pessoas, vizinhos. Decidiu ligar o som e ouvir aquele som estranho e dançar do
jeito estranho que dava para ser visto através da janela aberta por quem
passasse. Na faixa 2 do CD, a coragem de ajeitar a casa, cozinhar e curtir o
momento encheu o corpo de Pedro. Não demorara, o fato de morar sozinho há
bastante tempo, lhe dera jeito de arrumar a casa. Ao mexer em suas coisas
antigas, encontrou um tapete, muito bonito, que ganhara de presente de uma
grande amiga, nunca usou e ele tinha marcas e cheiro de objeto guardado há
algum tempo. Ele sempre lembrava de usar depois da casa arrumadinha, mas
desistia. Pedro começava a fazer suas coisas e o tempo todo algo chamava
sua atenção num homem vestido de branco, num estabelecimento apertado do outro
lado da rua, ele fumava bastante e mesmo quando não havia cigarro, ainda tinha
fumaça circundando-o. Esse estabelecimento não era totalmente de frente a sua
porta, o que existia um ângulo certo que dava para ver pela pequena janela, e
se fazia grande toda vez que passava por esse ângulo. Aparentemente, havia
também olhares do lado de lá da rua. Quando já estava na etapa final da sua
tarefa, Pedro notou a imagem de um primo seu debruçado na janela. De início
tomou um susto, mas depois, o convidou a entrar. E no mesmo instante, passou um
filme em segundos, no meio tempo em que seu primo abria, passava e fechava a
porta, ele pensou em estar feliz pela noite anterior, a importância da sua
família – o que diz respeito a primos –, a necessidade de se relacionar com eles,
de ímpeto, veio o pensamento que ele não queria receber visitas, adorava passar
seu tempo sozinho e a necessidade de abrir a janela naquela tarde. Com isso em
mente, cumprimentou educadamente o primo e sentiu algo estranho, uma espécie de
raiva, de aborrecimento. Pedro sabia o que estava sentindo, não era a primeira
vez, mas ele decidiu em todas às vezes ignorar e dessa vez não foi diferente,
ele apenas adicionou uma dúvida cínica, de não querer conhecer a si mesmo e
aquele sentimento. Olhou para o rapaz dos pés a cabeça e maquiou-se. Seu primo
era gordo, muito gordo e dificilmente conseguia se controlar ao ver comida, era
abobalhado ou apenas se fazia. Ele não sentou, foi à geladeira e tomou um copo
com água, voltou à sala e ali ficou respirando fundo e recuperando o ar dos
cinco passos à geladeira. Dialogaram brevemente entre perguntas e respostas
breves. Pedro não parou em momento algum de correr para um lado e outro da
tarefa, talvez pudesse ser uma forma de dizer ‘Estou ocupado!’, não funcionou.
Em um de seus ‘vai-e-vem’, Pedro entrou no quarto e estava voltando para o
quintal, foi quando viu que seu primo estava se dirigindo para lá também. Os
móveis apertados e a gordura do primo dificultavam a livre passagem de Pedro e
o bom desenvolvimento de sua tarefa. Ficaram os dois no quintal até Pedro
ligeiramente ir ao quarto e na volta participar de um rápido acontecimento,
onde ele ouviu dois disparos de um baixo calibre, sangue, seu primo ir ao chão
e um movimento involuntário da barriga flácida dele. No mesmo instante, ele
virou-se e estava justamente no ângulo certo que dava para ver pela janela o
pequeno estabelecimento do outro lado da rua, viu o homem de branco, ainda de
pé, mas agora apoiado com as costas na vereda de metal presa à parede onde
descia a única porta de rolo do compartimento, havia um cigarro entre as mãos,
mas Pedro só viu a fumaça, o que deixou-lhe mais confuso, parecia que o homem de
branco olhava atenciosamente para dentro da casa. Em movimentos também involuntários,
Pedro buscou o tapete que nunca havia usado para enrolar o corpo do seu primo,
era pequeno e se tornou insignificante. Numa tormenta entre corpo gélido,
sangue, crepúsculo, tapete insignificante, Pedro percebeu que agora fazia parte
de um dado estatístico ruim, não sabia qual. E agora, quantas pessoas fazem parte
de um dado estatístico ruim?