quinta-feira, 30 de maio de 2013

Namore uma garota que viaja


 Namore uma garota que viaja. Uma garota que prefira gastar seu dinheiro numa viagem no final de semana, uma viagem bate e volta que seja a torrar numa promoção do shopping. Ela anda com calçados confortáveis, pois nunca sabe qual distância ela irá andar aquele dia, afinal, ela não reconhece as distâncias como barreiras na vida.
Ela estará no aeroporto com um mochilão no próximo final de semana, ou em shows de bandas que você nunca ouviu falar “porque conheci eles um ano atrás, viajando”.
Ela carrega na bolsa lembranças de vários lugares diferentes, e sempre tem um lanchinho ou uma garrafa d’agua dentro dela, pois vai que ela não volta pra casa naquele dia? É marcada em mil fotos diferentes, de pessoas que moram bem longe dela, coleciona presentinhos que ganhou dos amigos que conheceu pela estrada, tem planos para viajar pelos próximos 5 anos para rever todos que teve que deixar pelo caminho. Encontra pessoas no meio da rua em um lugar bem longe onde jamais você conheceria alguém, e você verá que do outro lado do mundo tem alguém que a olha com o mesmo sorriso bobo que você faz quando a vê.
Ela não será a pessoa mais bem vestida por aí, porém a pele queimada de sol e o corpo com os músculos naturalmente desenhados de tantos dias nas montanhas combinadas com brincos sul americanos, uma mochila espanhola e sapatos da ásia farão uma combinação de estilo tão único, tão vibrante, que você já saberá alguma coisa sobre ela antes mesmo de perguntar seu nome. Não jogue com ela, não diga que ela é linda, pergunte de onde vem essa camiseta que ela veste, escute-a, veja a simplicidade da resposta e não se preocupe: você viajará com os “causos” delas antes mesmo que perceba isso.
Ela lê livros de viagens, escuta Eddie Vedder na estrada, sabe nome de lugares maravilhosos os quais você nunca havia ouvido falar antes. Fala com uma paixão sobre os lugares que é impossível não ter vontade de pedir demissão do trabalho amanhã e colocar a mochila nas costas e ela do lado. Muitas vezes vai te surpreender resolvendo coisas de um jeito totalmente novo, dizendo quando vir sua cara de espanto “é que uma vez quando eu estava viajando, aconteceu algo assim e…”. Ela vai querer te levar em todos os lugares em que esteve sozinha, e pensou como seria bom se estivesse acompanhada, vai fazer uma lista com você de “coisas para se viver esse ano”, vai completar com toda certeza, vai trazer cenários de filmes para sua vida, vai te fazer acreditar passar a noite num saco de dormir com o céu estrelado te faz sentir muito mais especial que qualquer quarto de hotel estrelado.
Namore uma garota que viaja porque ela ama a vida. Ela não tem tempo para picuinhas, sabe que a vida voa, e que é melhor amarmos agora, na maior das intensidades, porque nunca se sabe que curso a vida tomará amanhã. Você pode ir embora, se apaixonar por outro lugar, por outra vida, que não a inclua. Ela pode reclamar, mas sabe bem que isso acontece. Vai vibrar com suas conquistas que te levem pra longe dela, pois sabe o prazer que o desconhecido causa, e sabe também que as distâncias jamais levam as pessoas que amamos de verdade de nós, pelo contrário, as fixam que nem tatuagem. Não tem muitas coisas materiais, sabe que roupas desnecessárias na mala significam um problema de coluna por peso, passa dias e dias apenas com algumas peças, e continua linda se ver: ela se veste dela mesmo, e não há como bater isso.
Não siga padrões com ela. Não faça nada que envolva muito dinheiro com ela. Escolha o caminho mais bonito da cidade para atravessar a cidade do trabalho dela até a sua casa, ou até o restaurante de comida peruana mais próximo, preste atenção nos comentários que ela fizer sobre as coisas no caminho. Uma garota que viaja tem um olhar aguçado de uma criança, vai te fazer reparar numa planta florida, num grafiti fantástico que você nunca reparou, num anúncio colado no ponto de ônibus de um show interessante, vai definir os lugares pelos cheiros agradáveis no ar: “Roma tem cheiro de pizza, que nem esse cheiro agora”. Tudo coisas que de dentro de um carro importado com o ar condicionado ligado, não aconteceria.
Você viverá o momento presente como nunca. Ela te chamará atenção para tudo que está a sua volta, e não na briga que tiveram ontem. Ela vai ser a trilha sonora da tua vida.
A garota que viaja sabe te ouvir. Já ouviu muita gente do mundo inteiro, e o que alegrava os dias mochileiros dela era justamente se inserir nas histórias de tão longe. Ela repara o que ninguém repara no que você fala, só você havia prestado atenção nisso. Ela te ajuda sem esperar o retorno imediato, sabe como é essa vida, já foi ajudada inúmeras vezes na estrada sem que a pessoa pedisse um tostão de volta, e voltou para casa certa de fazer tudo diferente, pois sabe o quanto isso pode significar na vida da outra pessoa. Ela não liga para coisas pequenas como datas e presentes, ela liga para o quanto você andou para encontrá-la, o que você prestou atenção das coisas que ela te disse para mandar uma mensagem no celular dizendo “tá tocando aquela música que você disse ser a música de Cuzco. Saudades!” e provavelmente a resposta será: “Escutaremos ela de novo, lá”.
De repente, sua vida tomará um ritmo acelerado, cheio de novidades. Porém não descuide: traga novidades para a vida dela também, mantenha a curiosidade dela sempre acesa. É indispensável que fique na sua cabeça que estamos falando de uma menina apaixonada pela vida. Logo, não corte suas asas. Ela vai, caso você não possa ir. Ela volta, porque você é o motivo para ela se lembrar do caminho de volta. Acompanhe-a sempre que puder, e não espere para propor qualquer programa para ela, por mais louco que julgue ser. Ela vai sorrir e bolar várias coisas a mais para complementar o plano de vocês, e vai se encantar com sua energia. Ela sabe se encantar pelas coisas boas da vida, seja uma delas! Então juro: não há o menor risco de se arrepender.
Casamento é algo que assusta a maioria das garotas viajantes, mas no fundo é o que mais elas querem: alguém que elas possam rir tomando “uns bons drinks” relembrando as histórias de 1, 2, 8 anos atrás, alguém que tope uma casinha simples num lugar paradisíaco, e mesmo que você não faça a linha radical, que tire as fotos do rafting que ela estava louca para fazer, e a ajude a contar depois para os outros como foi a loucura, com a mesma empolgação. É, você vai se empolgar. Ela vai te propor um casamento numa montanha, com o Sol nascendo, ou na fazenda de um dos seus amigos, só com aquelas 50 pessoas que com toda certeza irão. Seja lá o que for, vai ser incomum, impensado como ela é, impensável, imprevisível. E a lua de mel, não espere menos que um mochilão! Menos dinheiro em cada lugar, mais lugares no itinerário, vários passeios e comidas curiosas encontradas pelo caminho que não são oferecidas pelas agências de viagens. Aliás, agência o que?
A menina que viaja não tem medo da idade, não tem medo das responsabilidades, das obrigações: ela já viu inúmeras soluções para cada caso por aí, já tem tudo montado na cabeça. A família de vocês vai ter um conhecimento de mundo incrível. Seus filhos vao saber o valor de cada refeição que tem, de cada teto que dormem, de cada monumento histórico que encontram na frente. Ela vai os ensinar respeitar e amar incondicionalmente a natureza, e ter uma habilidade incrível de se enturmar com qualquer tipo de pessoa do mundo. Serão pessoas bem queridas onde quer que vão, se depender de vocês. Ah, e não se esqueça do cachorro(s).
Pense nela aos 60: mesmo sorriso, mesmas andanças. O que te atrair nela, provavelmente será pra sempre, invariável com o tempo. uma pessoa acumulou uma qualidade de experiências notória, e que a cada dia que passa se divertiu com menos, se aborreceu com quase nada. Já terá vivido tanta coisa por aí que será a atração dos netos de todas as idades, explicando o significado do quadro maia estranho na parede, e fazendo a dança indiana no casamento de um deles. Esse tipo de alegria nunca se apaga, só se prolonga, e se espalha a quem a cerca.

Namore uma menina que viaja. Se ela te escolher, acredite: já passou tanta gente pela vida dela, de longe, de perto, pouco tempo, muito tempo, e se ela te escolheu é porque ela realmente GOSTA de você. Sem inseguranças ou interesses, ela gosta de você e pronto. Deixe-a te carregar pela mão, durma no colo dela nas rodoviárias, delicie seu miojo de acampamento. Deixe o mundo ser apresentado a você, caso ainda não tenha sido, e veja como alguém pode, definitivamente, ser a chave da sua alegria.


Traduzido de "Date a Girl Who Travels"
de Aleah Tabaclaon, inpirada por "Namore uma Garota que lê" de Rosemaire Urquico.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Pedro e sua caixa entomológica (Parte 2) - 04

"O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo."
            Mario Quintana


 As poças d’água eram bem mais divertidas, não que tenham mudado tanto, mas Pedro não precisava chegar a alguns lugares, tão limpinho quanto atualmente. Não havia obstáculos nem tantas responsabilidades, a escola era uma obrigação prazerosa. E ainda mais prazerosa do que a escola era os encontros, mais que obrigatórios, que Pedro tinha com seu avô. Homem meio velho – era assim que ele o descrevia – que andava um pouco mais lento e não ia mais tão longe. Homem alto, forte e de voz grave, mas que já falhava. Trabalhou muito, pai de cinco filhos, também fortes. Pedro, neto mais velho, muito próximo, pernas finas e forte, pequeno e raquítico, não media esforços quando o avô o chamava para “explorar” o sítio. Esse era o intuito de ir ao sítio visitar o avô. O homem meio velho usava sempre roupas leves e gostava de passear pelo seu sítio respirando o ar puro e sentindo a brisa que circundava excedente em suas terras. Pedro ia lá porque se sentia bem, sentia saudade sem saber o que é saudade, cansava sem conhecer o cansaço, descansava. Era feliz e não sabia. Adorava a comida da avó, mas seu interesse maior se fixava a uma caixa grande e pesada que o avô guardava em cima do armário, cheia de besouros e borboletas presos com um alfinete. Era linda, diferente e colorida, Pedro tinha 9 anos e aquilo era o de mais interessante que já havia visto em toda a sua vida. Pedro e seu avô se juntavam nas manhãs e nos finais da tarde dos fins de semana em que Pedro o visitava saíam estrada a fora, nas redondezas do sítio procurando os mais variados tipos de besouro para ser fixado à caixa entomológica do avô. Os dias de chuva eram os melhores, a lama divertida e escorregadia não conseguia desviar o foco de Pedro. A tarefa era prazerosa e cansativa ao mesmo tempo e o resultado era sempre dos melhores. A fixação era feita com muito cuidado apenas pelo avô de Pedro, ele só via dias depois quando voltava, era mágico. Passaram muito tempo nesse mesmo exercício, nada impedia a sede de exploração que Pedro tinha, ele nem percebia os passos já arrastados do avô. Sua mãe trocara de emprego e tivera de mudar-se para outra casa, uma mais próxima do trabalho e isso dificultava as idas à casa do avô pela distância. Depois de um tempo, Pedro sem saber do que se tratava saudade, sentia falta daqueles dias sem aula com o avô, acabava passando esses dias vendo TV e lendo livros e revistas. Foi surpreendido um dia com uma ótima notícia vinda da mãe, iriam voltam ao sítio, haveria uma festa, e ele, logo, teria uma oportunidade com o avô de “explorar” o sítio mais uma vez. Ficou ansioso. Ajeitaram as coisas e tomaram rumo com o carro pesado de tanta felicidade, de ambas as partes, o caminho inteiro. Foi chegando e logo a felicidade explodiu do peito do garoto chamando o avô para a procura de novos insetos. Contagiou. A euforia era enorme, mas foram perceptíveis os passos ainda mais lentos do avô. Pedro entendeu e não foram muito longe, voltaram rápido, cansados e famintos. Fora a única vez que “exploraram” em todo o fim de semana. Não sentiu falta, os primos já haviam chegado para suprir a carência e logo fazer esquecer-se dessa atividade com novas brincadeiras. Os dois dias logo se passaram e Pedro teve de voltar para sua casa e as obrigações de criança que tinha. Passou muito tempo sem ver o avô, mas tinha notícias dele, as ultimas não eram das melhores, recebia notícias que seu avô estava doente e passou muito tempo com essas mesmas. Isso o entristecia porque pensava em nunca mais voltar a “explorar” com o avô, apesar de sua mãe dizer o contrário. Pouco tempo depois eles foram pegos de surpresa com o óbito do homem meio velho, e a felicidade do ultimo dia deu espaço para o sentimento de tristeza pela falta que ele ia fazer. Voltaram ao sítio, era dia de aula, mas não importava, não sabia direito o que estava acontecendo, mas tudo que ele havia feito com o avô era agora apenas registrado na memória, sabia que não teria de volta aqueles momentos. Soube da gravidade quando viu o sítio do avô totalmente modificado com a falta que fazia sua presença, mas tinha dificuldade para descrever o que sentia, o que via e a reação das pessoas, as conhecidas e as desconhecidas. Viu que sua mãe não tinha forças para lhe dar suporte e ele sentia medo – era como ainda não estar pronto para aquele momento -. Sentiu-se só. As horas passaram e aquele ambiente foi ficando mais tolerável, mesmo que inseguro. Foi quando o tio mais velho – porém o filho do meio – começou a falar de algumas recordações com o pai e Pedro com o mesmo raciocínio foi se lembrando dos seus momentos também e num grito inesperado até para consigo, brandiu na sala, que deu para ouvir na cozinha: “-A caixa de besouros do vovô é minha!”. Pedro traduzira o óbvio.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A sabedoria e a inocência das crianças


Dicionário de crianças colombianas surpreende adultos.
São definições cheia de poesia e sabedoria:


Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)
Ancião: É um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)
Água: Transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)
Branco: O branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramírez, 11 anos)
Céu: De onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)
Colômbia: É uma partida de futebol (Diego Giraldo, 8 anos)
Dinheiro: Coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana María Noreña, 12 anos)
Deus: É o amor com cabelo grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)
Escuridão: É como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)
Guerra: Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejía, 11 anos)
Inveja: Atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)
Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)
Lua: É o que nos dá a noite (Leidy Johanna García, 8 anos)
Mãe: Mãe entende e depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)
Paz: Quando a pessoa se perdoa (Juan Camilo Hurtado, 8 anos)
Sexo: É uma pessoa que se beija em cima da outra (Luisa Pates, 8 anos)
Solidão: Tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Darío López, 10 anos)
Tempo: Coisa que passa para lembrar (Jorge Armando, 8 anos)
Universo: Casa das estrelas (Carlos Gómez, 12 anos)
Violência: Parte ruim da paz (Sara Martínez, 7 anos)

Fonte: livro "Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças", de Javier Naranjo

Apud Tico Santa Cruz.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Pedro e sua caixa entomológica (Parte 1) – 03

Nossa maior fraqueza está em desistir. A maneira mais segura de ter sucesso é sempre tentar mais uma vez.”         Thomas Edison.



Pedro sempre morou com a mãe depois da separação com seu pai, era o filho do meio, seu irmão mais velho tomou rumo muito cedo e logo se separou da família, virando caminhoneiro e vivendo nas estradas. Os três filhos tinha uma diferença de idade muito grande, e enquanto Pedro era apenas uma criança, seu irmão mais velho já estava se ajeitando para partir de casa, era o mais irritado com a separação dos pais, talvez o único. Pedro pensava não ter nada a ver com o assunto e, além do mais, nunca lhe faltara atenção de ambas as partes, enquanto seu irmão mais novo pouco entendia dos fatos. Pedro acordava com uma forte chuva que com tal força fazia cair poeira do telhado, não sabia se agradecia ou excomungava, esqueceu-se. A semana inteira havia chovido, já era fim de semana e ele já havia feito o que era de sua responsabilidade, levantou, olhou para a janela, a chuva estava passando, aquilo era comum, nos tempos remotos era praticamente impossível uma chuva com tal força acabar assim em poucos minutos. Sabia o que acontecia, foi preparar seu café e, depois de pronto, se postou a janela da cozinha que dava para uma parte que tinha plantas, era mato, e estava tudo verde com as últimas chuvas, resolveu abrir, mesmo com o frio, ventava forte lá fora. Logo, o cheiro de terra molhada se misturava com o cheiro do café. Sentiu-se bem e lembrou-se do seu avô, como que instantâneo Pedro se lembrou do objeto que guardava com o maior carinho, que havia herdado do avô depois de sua morte. Não esperou, largou a xícara de café sobre a mesa, com a janela aberta e o vento entrando brando, faria esfriar mais rapidamente, mas não se importou, correu somente. E lá, em cima do armário que guardava suas roupas, seus livros, discos e outras coisas de seu interesse, também suportava o peso da sua caixa entomológica. Passara uns 30 minutos ali, olhando, observando cada milímetro daquele troféu, não era tão grande, abrigava poucas espécies além de ter algumas réplicas, mas era bastante simbólico. A fome ecoou e ele voltou em busca do café, tomou-o em paz, com o resto dos biscoitos que eu o mandei naquela semana. Comia devagar e ao mesmo tempo contemplava pelo outro lado da janela, com a luz forte da manhã irradiando os seus olhos. Com a caixa entomológica e a lembrança do seu avô na mente, viu borboletas amarelas dançar na sua frente, do outro lado da janela, achou engraçado e pensou em ir coletar, completar ou até quem sabe fazer sua própria caixa entomológica. Não demorou até eu receber uma ligação de Pedro, era sábado de manha, muito cedo, por volta de umas 9h – quem me conhece sabe que é cedo para mim, principalmente num sábado –. Não atendi, mas ele tornou a ligar, 23 vezes. Acordei e resolvi atender, já era quase 10h da manhã e Pedro me convidara para explorar e coletar insetos na estrada perto do rio. Achei a ideia fantástica, olhei pela janela e observei o céu, os raios solares eram poucos para àquela hora do dia, existiam nuvens enormes penduradas e era perceptível que não iria chover até a noite, sem contar do cheirinho gostoso de chuva trago pelo vento, mas eu estava cheia de trabalhos pendente da universidade, não podia me dar a esse luxo e recusei. Pedro não se importou e foi de qualquer jeito, juntou algumas ferramentas, colocou tudo na mala do carro, a caixa levou na frente, era o que lhe dava força, o que lhe estigava. Entrou no carro, apertou o cinto e tomou seu rumo decidido, parou no caminho para abastecer e fugiu do caos da cidade, chegou ao seu local desejado, coletou, cansou, parou, retomou, foi feliz, recordou e decidiu ir mais além, estava gostando do trabalho, e foi. Colocou tudo de volta ao carro e andou mais uns 4 km estrada afora, começou tudo novamente, tinha uma boa quantia de insetos, alguns novos, outros repetidos, mas não importava, ele gostava da quantidade. Já exausto, decidiu se recolher e voltar. Sentiu fome no caminho. Seu carro era simples, Pedro não tinha exigências com relação a isso, só tinha um carro porque precisava sempre carregar muitas coisas de casa para o trabalho e nesse caso lhe ajudara bastante, já estava perto da ponte quando decidiu procurar algo para comer. Na cidade que Pedro morava tinha um rio circundando a extremidade de uma zona, era uma das saídas da cidade, e essa ponte era muito alta, tendo em vista a superfície do rio, e longa. Era pouco usada, servia de saída para algumas comunidades que viviam daquele outro lado e quando alguém delas precisava sair da cidade, poucos usavam essa ponte, havia outras opções por entre suas terras. Então era meio que abandonada, mas sua arquitetura era bonita. Pedro prestou atenção na estrada a sua frente e decidiu procurar uma bolsa que estava no banco de trás do seu carro, nela continha comida, seu objetivo era achar uma maçã ou um biscoito, algo que driblasse a fome até em casa, e ele sabia que ali tinha, era só achar. Com isso em mente, depois de sua atenciosa observação, se curvara quase que totalmente para trás, com uma das mãos no volante, falhou. Viu que era o cinto, ouviu o “click” e soltou seguindo logo para a próxima tentativa, deixou novamente uma das mãos no carro e nada diferente percebeu nos últimos cinco segundos, até que achou estranho a bolsa se mover para o lado contrário e ouviu uma pancada muito forte na frente do seu carro, tomou um susto e olhou rapidamente para frente, foi quando percebeu que ele havia virado a direção quase que completamente para a direita e com a aceleração quebrou a proteção lateral da ponte de um metro de altura. Pedro estava em queda livre com direção total para o rio, somente lhe esperando para aparar a queda. Caiu. Quando sentiu totalmente submerso procurou o cinto, mas este já havia soltado, e nadando contra o fôlego quase que escasso tentou abrir a porta, e cada vez mais o carro se movia para o fundo, para seu azar havia chovido a semana inteira e o rio estava com o nível de água pouco elevado e com correnteza, Pedro finalmente conseguiu sair pela janela do carro, e sem conseguir respirar, voltou os olhos para o carro, foi quando viu pela outra janela a sua caixa entomológica sair e a correnteza faze-la se abrir. Borboletas dançaram. Pedro quase que sem fôlego subiu à superfície, nadou até a margem, tentou se recuperar primeiramente, para depois pensar como ia voltar para casa. Uma coisa por vez.

quinta-feira, 16 de maio de 2013


Achei interessante, e gostaria de compartilhar:

Programa ALEXA de Radioexploração Espacial

Tulio Baars

Um adolescente de 16 anos, brasileiro de Santa Catarina, elabora uma ideia simples e, em pouco tempo, consegue apoio da Nasa para investigar as interações Sol-Terra na anomalia magnética do Atlântico Sul. Conheça um pouco da história de Tulio Baars Meira, o estudante que opera uma estação de radiotelescopia no Programa ALEXA de Radioexploração Espacial.

Pelas palavras do fundador do projeto:

"Quem aqui já ouviu falar na Anomalia Magnética do Atlântico Sul? Bem, provavelmente, ninguém. Ainda não. É que assim: o Brasil está nessa área do planeta, onde o campo magnético é mais fraco. Isso faz com que uma coisa chamada Cinturão de Van-Allen, que é uma bolha ao redor da Terra carregada com partículas do Sol fiquei mais perto da Terra. Satélites não passam por ela normalmente, para evitar radiação. Então, bolei um projeto de radioastronomia se aproveitando dessa área!!!

É que assim, essa é a melhor área do MUNDO para estudar o Sol, suas radiações e como elas afetam a Terra. Além disso, também quero estudar Júpiter e o sistema Joviano e auxiliar diretamente no SETI (Search for Extra Terrestrial Intelligence) com recursos computacionais e catando dados com meu rádiotelescópio, de nome Harvey (homenagem a Harvey Specter da série Suits)

Mandei o meu projetinho pra SARA da NASA e eles me deram um rádiotelescópio para estudar tudo isso. E a Universidade de Stanford resolveu contribuir também: doaram DOIS rádio telescópios para estudos detalhados da Ionosfera, para focar em pesquisas de efeitos em sistemas de telecomunicações e transmissão de energia elétrica."

Uma parte interessante da entrevista:

Jonas Scherer: Tu chegaste a falar com alguma instituição de pesquisa brasileira?

Tulio: Sim, sem resposta alguma. CNPq, MCTI, AEB, INPE, Planalto… O MCTI me respondeu dizendo para entrar em contato com o Ministério de Minas e Energia e o de Comunicações. Os outros nem a dignidade de responder tiveram.

Entrevista completa:

Jonas Scherer: Como foi essa tua história com a Nasa e Stanford?

Tulio: Foi com a Nasa (National Aeronautics and Space Administration), na verdade. Sendo detalhista, o contato foi com o Sara (Service and Advice for Research and Analysis), da Nasa. Como eles têm parceria, conseguiram os equipamentos para mim, aí o projeto do Solar Research Center, de Stanford, me doou pelo Sara outros equipamentos.
No dia 10 de dezembro de 2012 - esse dia ficou marcado – eu estava olhando o céu noturno, como costumo fazer em noites claras e vi um ponto luminoso que não piscava e se movia rapidamente pelo céu. Fui correndo conferir no Stellarium, um software de simulação de céu.
Aí descobri que era o Hubble, e vê-lo ali, tão “perto”, e lembrando das imagens que ele fazia, eu comecei a pesquisar um pouco naquele mesmo dia. Eu tinha uma lista de limitações dele que eram solucionadas pela radioastronomia e uns dois dias antes eu tinha recebido meu certificado. Tinha feito uma capacitação em magnetismo terrestre pelo Observatório Nacional, EaD,e tínhamos focado na anomalia magnética do Atlântico Sul (Amas) aí eu juntei: limitação do ótico + localização em que eu estava + Amas + radioastronomia…
Bolei uma ideia mental, tive uma ideia tosca e fui enviar a minha ideia para a Nasa. Consegui contato com eles através de uma antiga lista de e-mails e aí você já imagina, né? Enviei o e-mail para eles em 12 de dezembro de 2012, quarta-feira. No dia 16/12, domingo, eu tinha um código de rastreamento do radiotelescópio. O de Stanford foi em janeiro, mas eu estava bem mais ligado já. Foi mais tranquilo para conseguir.

Jonas Scherer: Foi muito rápido, o que tu dirias que chamou a atenção deles?

Tulio: Difícil… até porque, como vim a descobrir depois, tenta-se, desde 1970, estudar isso – as interações sol-terra na AMAS – só que poucos estudos apresentaram sucesso e nenhum querendo estudar numa faixa: faixa decamétrica de 20MHz, e é nessa que centralizarei meus estudos. Aqui no Brasil ou se estuda com Ionossondas em VLF – meus equipamentos cobrem VLF-LF até 80KHz – ou com micro-ondas na faixa dos GHz. Acho que foi essa vontade de estudar utilizando uma faixa inédita e talvez minha iniciativa, já nesta idade, mas é difícil afirmar.

Jonas Scherer: Eu suponho que tu estejas cursando o Ensino Médio, correto?

Tulio: Iniciei o 3º ano há duas semanas, mas tenho algumas capacitações… mas eles nem ficaram sabendo, creio eu.

Jonas Scherer: Então, com um e-mail e a descrição do teu projeto, o apoio foi conseguido?

Tulio: Mais ou menos. Eu estava bem perdido. Foram me direcionando lá dentro, indicando com quem e como falar. Depois de uma tarde de e-mails, aí que a coisa tomou forma.

Jonas Scherer: Havia alguém daqui do Brasil te ajudando?

Tulio: Nope. Ninguém. Para falar a verdade, nem minha mãe sabia disso. Foi às escuras.
Jonas Scherer: E tu vais colaborar com a Nasa?

Tulio: A exigência deles é que eu disponibilize meus dados livremente para qualquer um e envie para eles também.

Jonas Scherer: Qual a relevância da tua pesquisa?

Tulio: Grande. É que, assim, qualquer aparelho eletrônico e de transmissão de energia está vulnerável a flares de classe X, os mais fortes satélites, então, nem se fala. Minha pesquisa vai ajudar a entender melhor como isso se dá aqui na região da anomalia, isso é externo, digamos. Meu objetivo pessoal é estabelecer alguma teoria, modelo científico, que correlacione perturbações na ionosfera com flares solares

Jonas Scherer: Certo. Eu notei que tu tiveste alguns apoiadores, principalmente pelo site catarse.me… Tem algum tipo de apoio além desse?

Tulio: Tem da LiHS (liga Humanista Secular do Brasil) e da Vibroacustica. Ainda estou preparando o marketing da última.

Jonas Scherer: Tu ganhas alguma coisa para desenvolver esse projeto?

Tulio: Nada. Até agora desembolsei R$ 700 de economias. Só gastos (risadas), até chegar o patrocínio da Vibroacustica: aí pude pagar as dívidas do projeto.

Jonas Scherer: Então o apoio principal veio da NASA, das pessoas que fizeram doações no site catarse.me, da LiHS e da Vibrocaustica?

Tulio: isso!

Jonas Scherer: Tu chegaste a falar com alguma instituição de pesquisa brasileira?

Tulio: Sim, sem resposta alguma. CNPq, MCTI, AEB, INPE, Planalto… O MCTI me respondeu dizendo para entrar em contato com o Ministério de Minas e Energia e o de Comunicações. Os outros nem a dignidade de responder tiveram

Jonas Scherer: Tem mais alguém trabalhando contigo atualmente?

Tulio: Ninguém. Meus colegas estão bem fora. Participação zero.

Jonas Scherer: E em que estágio está o projeto?

Tulio: Hoje quero iniciar as leituras de SID Ionosfera e quero montar a antena principal até dia 15 de março.

Jonas Scherer: Já tens um laboratório completo, então?

Tulio: mais ou menos. falta bastante coisa. Mas dá para operar o básico

Jonas Scherer: O que falta?

Tulio: Computadores, monitores, nobreak.

Jonas Scherer: Tem mais alguma coisa que tu gostarias de dizer?

Tulio: Sim. Que eu acredito que o que falta aos jovens de hoje é iniciativa, é colaborar, é não fugir de responsabilidades e nunca, em hipótese alguma, ficar nas costas dos outros só para ter o nome lá. Até hoje eu sempre fui o único a fazer as coisas e se mexer para fazer direito: só que o meu empenho, em certos momentos, depende da boa vontade do outro, e é essa que acredito ser minha maior limitação hoje, tirando maturidade e conhecimento, mas as últimas vêm com o tempo

Projeto em PDF: http://alexa.ttablet.net/imagens/Ale...pleto_2013.pdf

Facebook do projeto: http://www.facebook.com/alexaradio?ref=ts&fref=ts

Fonte:

http://scienceblogs.com.br/discutind...rograma_alexa/

http://www.engenhariae.com.br/tecnol...dita-no-mundo/

http://www.bulevoador.com.br/2013/02...ciencia-alexa/

http://meiobit.com/116660/programa-alexa-tulio-baars/

http://www.bulevoador.com.br/2013/03...do-pretendido/

http://jovemnerd.ig.com.br/jovem-ner...-do-seu-apoio/

http://alexa.ttablet.net/imagens/


Fonte da entrevista: adrenaline.uol.com.br

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Pedro e sua TV - 02


     "O sol invadiu a sala, fez da TV um espelho, refletindo o que a gente esquecia"
                                                Marcelo Yuka.




Meu amigo Pedro havia passado a boa parte da noite acordado trabalhando em algo que ele gostava bastante, com relação a isso não media esforços, e Pedro era muito esforçado, sempre fizera suas atividades com gosto, poderiam não estar certas, mas a atenção era sempre muito grande. Neste dia Pedro levantou ansioso, era dia de um novo episódio da série que começara na semana anterior, – era meio de semana, mas ele sabia muito bem contornar qualquer situação, no caso se algo der errado por falta de tempo – ele não sabia se preparava algo para comer durante o programa ou se deixava tudo para depois. Enfim, decidiu fazer algo para comer durante o episódio! Pedro pensou em algo que fosse rápido, ele gostava de comer bem e não era qualquer ‘miojo’ que lhe acompanharia. Resolveu o que ia fazer e já foi logo colocando os ingredientes no fogo, no meio do preparo sempre dava uma olhada na hora tanto para tomar base do cozimento quanto para certificar-se de que já estava perto do inicio do programa, foi quando o momento chegara. Pedro não era o tipo de gente que deixava a TV ligada enquanto fazia outras atividades, também não gostava de programar, acabava perdendo o interesse pelo que ia assistir. Pedro não era de televisão, na realidade, ele era da leitura, porém aquilo que ia ver naquele dia fazia parte das suas leituras diárias e ele se sentiu muito atraído. Pedro morava numa casa pequena, poucos cômodos, poucos móveis, a sala era o maior cômodo, onde tinha uma TV a poucos centímetros do chão, um colchão no chão, de frente para a TV e o resto do piso cheio de livros empilhados, formando colunas deixando livres caminhos para transitar pela casa. Atraído pelo programa e ansioso para o próximo episódio, Pedro correu e foi ligar a TV, procurou o canal, ajustou o áudio, a imagem, o colchão, o travesseiro e o lençol, preferiu ficar deitado de mau jeito, quase sentado, com as costas encostadas na parede. Foi quando viu que passara tempo demais para o início do programa e o mesmo não começara. Enraiveceu. Não havia explicação, sem respirar, desligou a TV e foi em busca do seu computador para procurar alguma resposta para aquela situação, levantou-se, neste meio tempo viu seu reflexo passando na tela da TV, aquilo lhe chamara atenção e fê-lo voltar, sentou-se um pouco mais a frente do colchão, onde não conseguia encostar suas costas na parede. Ficou imóvel, admirando o reflexo, não a si mesmo, mas ao reflexo da tela em si, nunca havia percebido o quão interessante era a TV desligada. Ainda imóvel, olhando fixamente para o aparelho, sentado, com a coluna ereta, pernas cruzadas, estava absorto em pensamentos. Permaneceu. Era como uma magia, uma hipnose. De repente, Pedro notou que o seu rosto refletido na TV havia piscado os olhos, ficou sem entender e não procurou entender, não havia fechado os olhos em nenhum momento, ainda fixo, mas com a mente interrogando, Pedro viu a sua imagem na tela criar asas, sentiu uma dor cortar suas costas, não se mexeu, seu olhar curioso estava voltado para a tela, viu seu próprio corpo com asas enormes saindo de suas costas, tentou se mover para mais perto, mas aquelas membranas pesavam e isso o fez ficar ainda mais imóvel. Ficou se questionando como aquilo acontecera, esqueceu, e voltou seu olhar para as asas, chamava muita atenção, lembrou que um dia pensou em ter asas, mas não era daquele jeito, uma membrana fina e dura, ressecada, sem carne, com aparência de ossos grande e que pesava, incomodava, não era alivio como o de voar, passou muito tempo observando. Sentiu um incomodo e tentou se mover para uma melhor adequação, balançou a cabeça e percebeu em seu próprio corpo que não havia asas, nada de membranas, ele estranhou e voltou o olhar para a TV, ainda como magia, o seu movimento fez com que as asas desaparecessem. Percebendo a diferença do peso, sentiu um alivio vindo das costas e o reflexo da tela se transformar numa luz brilhante, estranhou, não havia ligado a TV, seus braços permaneceram imóveis a todo o tempo e os controles estavam no mesmo lugar. Pedro tinha um jeito único de arrumar suas coisas, herdado de familiares, de personagens de filmes, de livros, sua mesa tinha sempre uma toalha para proteção e dava um ar diferente na cozinha, não era detalhista, gostava de se divertir, usava a mesma por muito tempo, e a atual já estava por lá há bastante, mas agora coberta por fogo e fumaça que vinha da panela em cima do fogão deixada por Pedro para preparar sua comida. Ele ainda absorto na tela da TV, não demorou muito para perceber, já que agora nada mais era do que uma luz muito forte que refletia. Deu por si e correu, não havia tempo para pensar, sua mesa era de plástico e a toalha de proteção era de um pano muito fino que rapidamente fora engolida pelas chamas. Agindo por impulso, Pedro se jogou por entre a fumaça vinda da cozinha, tentando achar a porta do banheiro, onde encontraria a solução, encheu o balde com água pelo chuveiro no qual era muito devagar, ele não tinha tempo e aproveitou para tossir, além de procurar qualquer outra toalha que pudesse lhe proteger da inalação da fumaça. O balde encheu e antes de sair deixou a torneira da pia aberta para ir acumulando mais água, fez isso muitas vezes, deu trabalho, mas Pedro conseguiu conter as chamas. Por fim, respirou, viu o que realmente tinha acontecido, uma parte da sua mesa já não prestava mais, o seu fogão e a panela. Pensou em ter encontrado o seu dia mais desatencioso.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A TERRA CAIU NO CHÃO



Visitando o meu sertão,
que tanta grandeza encerra,
trouxe um pedacinho de terra,
com muita satisfação.

Fiz isso na intenção,
como fez Pedro Segundo,
de quando eu deixasse o mundo,
levá-lo no meu caixão!

Chegando ao Rio pensei:
guardá-lo só para mim,
e num saquinho de brim,
essa relíquia encerrei!

Com carinho e com cuidado,
numa ripa do telhado,
o saquinho pendurei...

Uma doença apanhei...
E vendo bem próxima a morte,
lembrando as terras do norte,
do saquinho me lembrei...

Que cruel desilusão!!!
As traças, sem coração
meteram os dentes no saco,
fizeram um grande buraco...
E a terra caiu no chão!!!


Zé da Luz.



Para aqueles que só conhece 'Ai que Sêsse'.


sexta-feira, 3 de maio de 2013

Pedro e os beijos de balas - 01

"e, no entanto, é somente um pensamento, por mais amedrontador que seja..." 
Edgar Allan Poe.


O meu amigo Pedro despertara, sentiu a garganta seca, correu à geladeira e entre um gole e outro, observava as dicas de uso impressa em papel adesivo e pregado entre a porta e os compartimentos. Terminou e enquanto voltava para o quarto achou que alguém estivesse à porta a chamar. Neste dia, meu amigo Pedro, como tabelado, ia cumprir mais uma visita a mãe. Lembrou-se da última vez que a visitou enquanto se arrumava, tiveram a falar sobre coisas mais intimas, como o prazer de ter alguém do lado, a composição desse alguém, homem, mulher. Então Pedro observara sempre que a mãe acreditava no que a TV falava, retrucava, chorava por dentro, mas respeitava. Já ela não fazia o mesmo e nem sabia 1/5 do que Pedro hoje soubesse, fato que fez Pedro se mudar e ir morar a 125 km de distancia da mãe. Submerso nestes pensamentos percebera que arrumara tudo e era hora de partir. Conduziu-se e não sabia o que ia achar na casa da mãe, mas talvez a Morte já esteja ao seu lado afiando sua enorme foice e esperando dar a hora que já marcara na agenda. Pois é, a Sra. Morte anda com uma agenda e acreditem não é da Hello Kitty. Pedro andava cansado da rotina exaustiva, pretendia descansar, mas era impossível conhecendo a casa da mãe como conhecia, sempre lugar de muita gente, pensando nisso parou num posto e decidiu comprar uma cerveja, eram só 250 ml, a Morte vendo-o de longe deu de ombros, nada tinha a ver com aquilo. Mesmo exausto, prosseguiu... Viu as mesmas paisagens, estrada vazia, nada mudara. Chegou a seu destino tranquilamente, maquiou a exaustão, encontrou muita gente, maquiou-se por completo, Tirou as coisas do carro e pouco a pouco foi se maquiando, tentando voltar a ser como sempre foi debaixo daquele teto, ao menos para a paz reinar por 2 ou 3 dias quem sabe, contou como só mais um esforço, tendo em vista o que podia acontecer se soubesse da maneira como vivia a 125 km dali. A 30 min depois de sua chegada, escureceu, tornou-se noite e a escuridão que ela trazia levou a esquecer algumas coisas que se passara por entre sua cabecinha, foi feliz em um curto espaço de tempo. Sorriu. Tranquila, foi a primeira noite ali depois que chegara, nada de muito alvoroço sem muitas conversas, levara seu livro e deu uma adiantada. No dia seguinte percebera que havia acordado um pouco tarde para a normalidade local, o que fez com que se sentisse um pouco mal, visto que ao mesmo tempo que pertencia aquele lugar, já não fazia mais parte dele e tudo em tão pouco tempo. Fez do almoço o café. Ouviu o que não queria, só para variar. Foi a sala, deu um tempo na TV, não havia papo. Chegou gente nova, marcando algo com sua mãe para o dia que estava por vir, ela não aceitara de ante mão, mas era só colocar mais papo, ele sabia. Tudo foi acordado, o próximo dia e ultimo dele na casa da mãe haveria um churrasco, só para juntar os amigos vizinhos, papear e beber. Ele não estaria de acordo e resolveu não ligar, de toda a forma passaria seu domingo no quarto. Deu de ombros e voltou para o quarto, alternou entre o livro e o computador. Sem ser incomodado, passou um bom tempo ali, resolveu sair, mas já era tarde, encontrou todos dormindo, a TV falando pelos cotovelos e para as paredes, deu uma volta la fora, sentiu frio, a barriga deu sinal de vida, voou à geladeira, percebera os termos de uso impresso em papel adesivo, assim como na sua casa. Satisfez-se e lembrou do celular, passou as próximas duas horas ali, no cantinho da cozinha, sentado em uma das cadeiras da mesa, imerso pela escuridão e com a cara iluminada pela tela do celular, estava feliz, conversara com quem gostava. Deixado sozinho, voltou a cama, desligou o celular, o computador, o abajur, não queria ser incomodado nas próximas horas. Foi abordado pelo brilho intenso da manhã, mas logo ignorou, acordou ainda mais tarde que no dia anterior e novamente fez do almoço um café. Achou muita gente em casa, muita gente estranha, sua mãe dissera dos vizinhos novatos. Ele não gostou, mas nunca gostara... Comeu, deu uma observada na casa, uma olhada la fora – a casa era construída em um lugar mais alto que as da frente e dava para ver o céu sob as casas – e voltou para o quarto, passou suas próximas três horas imerso nas palavras do seu livro, estava quente, mas ele não pensava em beber, estava razoavelmente confortável, a não ser pela barulheira vinda de fora. Quando não aguentava mais e visto que a festa já passava do que se chamava de sóbrio, foi la fora ver como estavam as coisas, olhar para a vizinhança, olhar para a arvore de frente a casa da sua mãe, resolveu respirar. Já fazia algum tempo que estava ali, absorto em pensamentos sentado à sombra da grande arvore, ouviu gritos ao longe, era uma das amigas de sua mãe que brigava com o marido e suplicava para ele parar de beber, Pedro não gostara nenhum pouco da entonação daquele homem e foi la ver o que estava acontecendo. Não pensava em violência, era um recém homem pacifico, de alma serena que cultivava boas leituras e boas conversas. O homem, porém, à sua casa, era de completa alma rude e de perfeita percepção que havia coragem suficiente em seu corpo para algumas atrocidades. Pensou em levar aquilo como brincadeira, mas o olhar de medo da sua mãe naquele instante já lhe traduziu. Perguntou o que estava acontecendo, obteve um nada como resposta, resolveu, em segundos, não ligar e voltou para o quarto, Fingiu ler, ouviu como sua mãe contornou toda a história para que a farra acabasse, ficou quieto em seu quarto e viu as coisas se concertarem. Prevaleceu o silêncio, resolveu tomar um banho e deixou seu livro em cima do sofá, quando voltou, encontrou sua mãe ao chão do lugar onde toda a bebedeira acontecera, fingindo ler o seu livro e maquiando a situação constrangedora. Pedro foi para o quarto se vestir e não saiu de la, lembrou do celular, mas não o ligou, correu para o computador, ligou o aparelho portátil e enquanto o programa iniciava buscou algo da cozinha para mastigar, percebera que a mãe estava a trancar o portão com o cadeado, coisa muito difícil de acontecer aquela hora, era cedo. Ficou ainda mais ligado. Dividia sua atenção entre o computador e o mundo por trás da sua parede, quando depois de alguns minutos, a noite já dizia oi, ouviu gritos de pânico e tensão vindos la de fora, apavorou-se e saiu correndo do quarto encontrou sua mãe na mesma posição que estava quando entrara no quarto, porém, o mesmo homem moreno, alto, com voz exaltada e  sua mulher loira, aos prantos, do lado. Pedro perguntou novamente o que estava acontecendo, não obteve resposta, sua mãe parecia não estar preocupada, mas ele não via sua cara. Foi quando o homem, que gritava ainda no portão, impedido de entrar, sacou uma arma, que Pedro não faz a mínima ideia de onde ele tirou e alternou a pontaria entre ele e sua mãe. Pedro enfraqueceu-se. Ouviu a voz irritante e estérica da mulher, pensou em mil coisas, principalmente em voltar, mas não ia deixar sua mãe sozinha e assim também seria atingido pelas costas, pois os homem poderia achar que ele pediria ajuda por telefone. A área externa da casa da mãe de Pedro, era muito grande tendo uma entrada para a lateral da casa, toda a sua frente era um portão grande, mas havia algumas paredes laterais na qual segurava o portão, Pedro decidiu correr para a parede lateral esquerda, o homem viu como uma ameaça, isso não durou 10 segundos, foi quando Pedro viu o rosto da sua mãe, que sorriu pacificamente sem mostrar os dentes, naquele momento, ele tentou fazer algo que nunca sentiu vontade, proteger sua mãe, suplicou pelo olhar que ela entrasse, a pressão era tão grande que logo se esvaiu em berros, foi quando o homem andou para o lado esquerdo do portão, enfiou o braço por entre as grades e apertou o gatilho, com o cano totalmente apontado para meu amigo Pedro, isso fez-lo ser atingido na garganta, no mesmo momento, sentindo o cheiro da bala que lhe beijara o pescoço e a dor do entranhamento em sua carne, virou-se para a mãe suplicando um ultimo pedido de proteção, antes que acontecesse algo pior, foi quando esta deu-lhe mais um sorriso sereno, entre toda a trepidação dos seus membros, virou o rosto para o livro e baixou a face fazendo encostar seu nariz no vinco que saía as paginas. O homem ainda em estado eufórico, puxou o gatilho mais três vezes, agora em direção a mãe de Pedro, sem pronunciar uma palavra, o grito histérica da mulher vendo duas das balas atingir diretamente a cabeça da sua amiga, cobriu o som dos disparos. Pedro, morrendo de dor sentiu a quentura do sangue a lhe cobrir o rosto, de um pano de chão à sua cabeça e de uma lágrima a cair do seu rosto. Usou o pano de chão para tentar estancar o ferimento, sentiu sua respiração forte e grânulos de areia a misturar no sangue grosso escorrendo. Viu sua mãe morrer num domingo em horário crepuscular. 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Namore uma garota que lê



Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.

Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.

Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criado pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.

Compre para ela outra xícara de café.
Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, E. E. Cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade, mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.

É que ela tem que arriscar, de alguma forma.
Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.

Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem.

Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo.

Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.

Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.

Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.

Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.

 Rosemarie Urquico