terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Água POTável

       


        Há tempos incalculáveis não ouvia a palavra "pote". Pote é um utensílio domiciliar bastante usado nos anos de mil novecentos e bolinha para guardar água "potável" para auxiliar nos afazeres domésticos. O casamento da energia elétrica e a tecnologia fizeram com que o pote chegasse a beira da extinção, salvo por uma colocação de uma colega de trabalho na semana passada: "Faça um favor, fulano, me arrume um copo d'água, já que você está mais perto do pote", referindo-se ao "gelágua" (talvez a evolução do pote). Aquilo me chamou atenção e eu praticamente vomitei a frase "Faz muito tempo que não ouço a palavra pote", foi quando instantaneamente ela contou um ocorrido de pouco tempo, tardando 3 dias, em que foi visitar uns parentes e viu e bebeu água de um pote que encontrou por la. E quase que instantaneamente me lembrei da última vez que tomei água de pote. Enquanto ela descrevia sua aventura, eu, curiosa, atenta e imaginativa, perguntava: "Tinha um degrau de terra batida embaixo?" "Tinha!" "Tinha uma tampa abrindo a boca?" "Tinha!" "Tinha uma bandeja de copos virados com a boca para baixo?" "Tinha!" "E tinha um pano cobrindo os copos?" "Tinha". Eureka! Ela estava descrevendo um pote igualzinho do que eu estava me lembrando, ela foi contando sua história e eu lembrando da minha:
         A última vez que tomei água de pote foi à tardinha e eu tinha passado o dia todinho andando de bicicleta no sítio, exceto para o abastecimento no almoço e no lanche, dessa vez uma parada para beber água e na casa mais próxima pedi, entrei e vi. A mulher puxou a tampa do pote, com uma caneca deliberadamente grande jogou-a la dentro e trouxe cheia de água, pegou um copo sem muita atenção de uma bandeja de copos que descansava em cima da pia, encheu pela metade, o copo também era grande, eu fui com "muita sede ao pote" e levei o copo d'água com prazer a boca, três ou quatro goles depois sinto um "ploc" vindo de dentro do copo que ainda estava em minha boca, confusa e ao mesmo tempo certa que minha língua estava dentro da boca, envesguei os olhos para o fundo do copo, foi quando dei de cara com aqueles olhos grandes e amarelos que profundamente me olhava, uma rã, soltei o copo do susto e do susto a rã pulou fora e se escondeu atrás do pote. Mesmo criança, decretei naquele dia nunca mais tomar água de pote e quebrei o decreto infantil, anos depois, trabalhando em um assentamento rural, num alpendre contando a mesma história.