“Nossa maior fraqueza está em desistir. A maneira mais segura de ter sucesso é sempre tentar mais uma vez.” Thomas Edison.
Pedro sempre morou com a mãe depois da separação com seu pai, era o
filho do meio, seu irmão mais velho tomou rumo muito cedo e logo se separou da família,
virando caminhoneiro e vivendo nas estradas. Os três filhos tinha uma diferença
de idade muito grande, e enquanto Pedro era apenas uma criança, seu irmão mais
velho já estava se ajeitando para partir de casa, era o mais irritado com a
separação dos pais, talvez o único. Pedro pensava não ter nada a ver com o
assunto e, além do mais, nunca lhe faltara atenção de ambas as partes, enquanto
seu irmão mais novo pouco entendia dos fatos. Pedro acordava com uma forte chuva
que com tal força fazia cair poeira do telhado, não sabia se agradecia ou
excomungava, esqueceu-se. A semana inteira havia chovido, já era fim de semana
e ele já havia feito o que era de sua responsabilidade, levantou, olhou para a
janela, a chuva estava passando, aquilo era comum, nos tempos remotos era
praticamente impossível uma chuva com tal força acabar assim em poucos minutos.
Sabia o que acontecia, foi preparar seu café e, depois de pronto, se postou a
janela da cozinha que dava para uma parte que tinha plantas, era mato, e estava
tudo verde com as últimas chuvas, resolveu abrir, mesmo com o frio, ventava
forte lá fora. Logo, o cheiro de terra molhada se misturava com o cheiro do
café. Sentiu-se bem e lembrou-se do seu avô, como que instantâneo Pedro se
lembrou do objeto que guardava com o maior carinho, que havia herdado do avô
depois de sua morte. Não esperou, largou a xícara de café sobre a mesa, com a
janela aberta e o vento entrando brando, faria esfriar mais rapidamente, mas
não se importou, correu somente. E lá, em cima do armário que guardava suas
roupas, seus livros, discos e outras coisas de seu interesse, também suportava
o peso da sua caixa entomológica. Passara uns 30 minutos ali, olhando,
observando cada milímetro daquele troféu, não era tão grande, abrigava poucas
espécies além de ter algumas réplicas, mas era bastante simbólico. A fome ecoou
e ele voltou em busca do café, tomou-o em paz, com o resto dos biscoitos que eu
o mandei naquela semana. Comia devagar e ao mesmo tempo contemplava pelo outro
lado da janela, com a luz forte da manhã irradiando os seus olhos. Com a caixa entomológica
e a lembrança do seu avô na mente, viu borboletas amarelas dançar na sua
frente, do outro lado da janela, achou engraçado e pensou em ir coletar,
completar ou até quem sabe fazer sua própria caixa entomológica. Não demorou
até eu receber uma ligação de Pedro, era sábado de manha, muito cedo, por volta
de umas 9h – quem me conhece sabe que é cedo para mim, principalmente num
sábado –. Não atendi, mas ele tornou a ligar, 23 vezes. Acordei e resolvi
atender, já era quase 10h da manhã e Pedro me convidara para explorar e coletar
insetos na estrada perto do rio. Achei a ideia fantástica, olhei pela janela e
observei o céu, os raios solares eram poucos para àquela hora do dia, existiam
nuvens enormes penduradas e era perceptível que não iria chover até a noite,
sem contar do cheirinho gostoso de chuva trago pelo vento, mas eu estava cheia
de trabalhos pendente da universidade, não podia me dar a esse luxo e recusei. Pedro
não se importou e foi de qualquer jeito, juntou algumas ferramentas, colocou
tudo na mala do carro, a caixa levou na frente, era o que lhe dava força, o que
lhe estigava. Entrou no carro, apertou o cinto e tomou seu rumo decidido, parou
no caminho para abastecer e fugiu do caos da cidade, chegou ao seu local
desejado, coletou, cansou, parou, retomou, foi feliz, recordou e decidiu ir
mais além, estava gostando do trabalho, e foi. Colocou tudo de volta ao carro e
andou mais uns 4 km estrada afora, começou tudo novamente, tinha uma boa
quantia de insetos, alguns novos, outros repetidos, mas não importava, ele
gostava da quantidade. Já exausto, decidiu se recolher e voltar. Sentiu fome no
caminho. Seu carro era simples, Pedro não tinha exigências com relação a isso,
só tinha um carro porque precisava sempre carregar muitas coisas de casa para o
trabalho e nesse caso lhe ajudara bastante, já estava perto da ponte quando
decidiu procurar algo para comer. Na cidade que Pedro morava tinha um rio
circundando a extremidade de uma zona, era uma das saídas da cidade, e essa
ponte era muito alta, tendo em vista a superfície do rio, e longa. Era pouco
usada, servia de saída para algumas comunidades que viviam daquele outro lado e
quando alguém delas precisava sair da cidade, poucos usavam essa ponte, havia
outras opções por entre suas terras. Então era meio que abandonada, mas sua
arquitetura era bonita. Pedro prestou atenção na estrada a sua frente e decidiu
procurar uma bolsa que estava no banco de trás do seu carro, nela continha
comida, seu objetivo era achar uma maçã ou um biscoito, algo que driblasse a
fome até em casa, e ele sabia que ali tinha, era só achar. Com isso em mente,
depois de sua atenciosa observação, se curvara quase que totalmente para trás,
com uma das mãos no volante, falhou. Viu que era o cinto, ouviu o “click” e
soltou seguindo logo para a próxima tentativa, deixou novamente uma das mãos no
carro e nada diferente percebeu nos últimos cinco segundos, até que achou
estranho a bolsa se mover para o lado contrário e ouviu uma pancada muito forte
na frente do seu carro, tomou um susto e olhou rapidamente para frente, foi
quando percebeu que ele havia virado a direção quase que completamente para a
direita e com a aceleração quebrou a proteção lateral da ponte de um metro de
altura. Pedro estava em queda livre com direção total para o rio, somente lhe
esperando para aparar a queda. Caiu. Quando sentiu totalmente submerso procurou
o cinto, mas este já havia soltado, e nadando contra o fôlego quase que escasso
tentou abrir a porta, e cada vez mais o carro se movia para o fundo, para seu
azar havia chovido a semana inteira e o rio estava com o nível de água pouco
elevado e com correnteza, Pedro finalmente conseguiu sair pela janela do carro,
e sem conseguir respirar, voltou os olhos para o carro, foi quando viu pela
outra janela a sua caixa entomológica sair e a correnteza faze-la se abrir.
Borboletas dançaram. Pedro quase que sem fôlego subiu à superfície, nadou até a
margem, tentou se recuperar primeiramente, para depois pensar como ia voltar para
casa. Uma coisa por vez.
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