sexta-feira, 24 de maio de 2013

Pedro e sua caixa entomológica (Parte 2) - 04

"O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo."
            Mario Quintana


 As poças d’água eram bem mais divertidas, não que tenham mudado tanto, mas Pedro não precisava chegar a alguns lugares, tão limpinho quanto atualmente. Não havia obstáculos nem tantas responsabilidades, a escola era uma obrigação prazerosa. E ainda mais prazerosa do que a escola era os encontros, mais que obrigatórios, que Pedro tinha com seu avô. Homem meio velho – era assim que ele o descrevia – que andava um pouco mais lento e não ia mais tão longe. Homem alto, forte e de voz grave, mas que já falhava. Trabalhou muito, pai de cinco filhos, também fortes. Pedro, neto mais velho, muito próximo, pernas finas e forte, pequeno e raquítico, não media esforços quando o avô o chamava para “explorar” o sítio. Esse era o intuito de ir ao sítio visitar o avô. O homem meio velho usava sempre roupas leves e gostava de passear pelo seu sítio respirando o ar puro e sentindo a brisa que circundava excedente em suas terras. Pedro ia lá porque se sentia bem, sentia saudade sem saber o que é saudade, cansava sem conhecer o cansaço, descansava. Era feliz e não sabia. Adorava a comida da avó, mas seu interesse maior se fixava a uma caixa grande e pesada que o avô guardava em cima do armário, cheia de besouros e borboletas presos com um alfinete. Era linda, diferente e colorida, Pedro tinha 9 anos e aquilo era o de mais interessante que já havia visto em toda a sua vida. Pedro e seu avô se juntavam nas manhãs e nos finais da tarde dos fins de semana em que Pedro o visitava saíam estrada a fora, nas redondezas do sítio procurando os mais variados tipos de besouro para ser fixado à caixa entomológica do avô. Os dias de chuva eram os melhores, a lama divertida e escorregadia não conseguia desviar o foco de Pedro. A tarefa era prazerosa e cansativa ao mesmo tempo e o resultado era sempre dos melhores. A fixação era feita com muito cuidado apenas pelo avô de Pedro, ele só via dias depois quando voltava, era mágico. Passaram muito tempo nesse mesmo exercício, nada impedia a sede de exploração que Pedro tinha, ele nem percebia os passos já arrastados do avô. Sua mãe trocara de emprego e tivera de mudar-se para outra casa, uma mais próxima do trabalho e isso dificultava as idas à casa do avô pela distância. Depois de um tempo, Pedro sem saber do que se tratava saudade, sentia falta daqueles dias sem aula com o avô, acabava passando esses dias vendo TV e lendo livros e revistas. Foi surpreendido um dia com uma ótima notícia vinda da mãe, iriam voltam ao sítio, haveria uma festa, e ele, logo, teria uma oportunidade com o avô de “explorar” o sítio mais uma vez. Ficou ansioso. Ajeitaram as coisas e tomaram rumo com o carro pesado de tanta felicidade, de ambas as partes, o caminho inteiro. Foi chegando e logo a felicidade explodiu do peito do garoto chamando o avô para a procura de novos insetos. Contagiou. A euforia era enorme, mas foram perceptíveis os passos ainda mais lentos do avô. Pedro entendeu e não foram muito longe, voltaram rápido, cansados e famintos. Fora a única vez que “exploraram” em todo o fim de semana. Não sentiu falta, os primos já haviam chegado para suprir a carência e logo fazer esquecer-se dessa atividade com novas brincadeiras. Os dois dias logo se passaram e Pedro teve de voltar para sua casa e as obrigações de criança que tinha. Passou muito tempo sem ver o avô, mas tinha notícias dele, as ultimas não eram das melhores, recebia notícias que seu avô estava doente e passou muito tempo com essas mesmas. Isso o entristecia porque pensava em nunca mais voltar a “explorar” com o avô, apesar de sua mãe dizer o contrário. Pouco tempo depois eles foram pegos de surpresa com o óbito do homem meio velho, e a felicidade do ultimo dia deu espaço para o sentimento de tristeza pela falta que ele ia fazer. Voltaram ao sítio, era dia de aula, mas não importava, não sabia direito o que estava acontecendo, mas tudo que ele havia feito com o avô era agora apenas registrado na memória, sabia que não teria de volta aqueles momentos. Soube da gravidade quando viu o sítio do avô totalmente modificado com a falta que fazia sua presença, mas tinha dificuldade para descrever o que sentia, o que via e a reação das pessoas, as conhecidas e as desconhecidas. Viu que sua mãe não tinha forças para lhe dar suporte e ele sentia medo – era como ainda não estar pronto para aquele momento -. Sentiu-se só. As horas passaram e aquele ambiente foi ficando mais tolerável, mesmo que inseguro. Foi quando o tio mais velho – porém o filho do meio – começou a falar de algumas recordações com o pai e Pedro com o mesmo raciocínio foi se lembrando dos seus momentos também e num grito inesperado até para consigo, brandiu na sala, que deu para ouvir na cozinha: “-A caixa de besouros do vovô é minha!”. Pedro traduzira o óbvio.

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