sexta-feira, 3 de maio de 2013

Pedro e os beijos de balas - 01

"e, no entanto, é somente um pensamento, por mais amedrontador que seja..." 
Edgar Allan Poe.


O meu amigo Pedro despertara, sentiu a garganta seca, correu à geladeira e entre um gole e outro, observava as dicas de uso impressa em papel adesivo e pregado entre a porta e os compartimentos. Terminou e enquanto voltava para o quarto achou que alguém estivesse à porta a chamar. Neste dia, meu amigo Pedro, como tabelado, ia cumprir mais uma visita a mãe. Lembrou-se da última vez que a visitou enquanto se arrumava, tiveram a falar sobre coisas mais intimas, como o prazer de ter alguém do lado, a composição desse alguém, homem, mulher. Então Pedro observara sempre que a mãe acreditava no que a TV falava, retrucava, chorava por dentro, mas respeitava. Já ela não fazia o mesmo e nem sabia 1/5 do que Pedro hoje soubesse, fato que fez Pedro se mudar e ir morar a 125 km de distancia da mãe. Submerso nestes pensamentos percebera que arrumara tudo e era hora de partir. Conduziu-se e não sabia o que ia achar na casa da mãe, mas talvez a Morte já esteja ao seu lado afiando sua enorme foice e esperando dar a hora que já marcara na agenda. Pois é, a Sra. Morte anda com uma agenda e acreditem não é da Hello Kitty. Pedro andava cansado da rotina exaustiva, pretendia descansar, mas era impossível conhecendo a casa da mãe como conhecia, sempre lugar de muita gente, pensando nisso parou num posto e decidiu comprar uma cerveja, eram só 250 ml, a Morte vendo-o de longe deu de ombros, nada tinha a ver com aquilo. Mesmo exausto, prosseguiu... Viu as mesmas paisagens, estrada vazia, nada mudara. Chegou a seu destino tranquilamente, maquiou a exaustão, encontrou muita gente, maquiou-se por completo, Tirou as coisas do carro e pouco a pouco foi se maquiando, tentando voltar a ser como sempre foi debaixo daquele teto, ao menos para a paz reinar por 2 ou 3 dias quem sabe, contou como só mais um esforço, tendo em vista o que podia acontecer se soubesse da maneira como vivia a 125 km dali. A 30 min depois de sua chegada, escureceu, tornou-se noite e a escuridão que ela trazia levou a esquecer algumas coisas que se passara por entre sua cabecinha, foi feliz em um curto espaço de tempo. Sorriu. Tranquila, foi a primeira noite ali depois que chegara, nada de muito alvoroço sem muitas conversas, levara seu livro e deu uma adiantada. No dia seguinte percebera que havia acordado um pouco tarde para a normalidade local, o que fez com que se sentisse um pouco mal, visto que ao mesmo tempo que pertencia aquele lugar, já não fazia mais parte dele e tudo em tão pouco tempo. Fez do almoço o café. Ouviu o que não queria, só para variar. Foi a sala, deu um tempo na TV, não havia papo. Chegou gente nova, marcando algo com sua mãe para o dia que estava por vir, ela não aceitara de ante mão, mas era só colocar mais papo, ele sabia. Tudo foi acordado, o próximo dia e ultimo dele na casa da mãe haveria um churrasco, só para juntar os amigos vizinhos, papear e beber. Ele não estaria de acordo e resolveu não ligar, de toda a forma passaria seu domingo no quarto. Deu de ombros e voltou para o quarto, alternou entre o livro e o computador. Sem ser incomodado, passou um bom tempo ali, resolveu sair, mas já era tarde, encontrou todos dormindo, a TV falando pelos cotovelos e para as paredes, deu uma volta la fora, sentiu frio, a barriga deu sinal de vida, voou à geladeira, percebera os termos de uso impresso em papel adesivo, assim como na sua casa. Satisfez-se e lembrou do celular, passou as próximas duas horas ali, no cantinho da cozinha, sentado em uma das cadeiras da mesa, imerso pela escuridão e com a cara iluminada pela tela do celular, estava feliz, conversara com quem gostava. Deixado sozinho, voltou a cama, desligou o celular, o computador, o abajur, não queria ser incomodado nas próximas horas. Foi abordado pelo brilho intenso da manhã, mas logo ignorou, acordou ainda mais tarde que no dia anterior e novamente fez do almoço um café. Achou muita gente em casa, muita gente estranha, sua mãe dissera dos vizinhos novatos. Ele não gostou, mas nunca gostara... Comeu, deu uma observada na casa, uma olhada la fora – a casa era construída em um lugar mais alto que as da frente e dava para ver o céu sob as casas – e voltou para o quarto, passou suas próximas três horas imerso nas palavras do seu livro, estava quente, mas ele não pensava em beber, estava razoavelmente confortável, a não ser pela barulheira vinda de fora. Quando não aguentava mais e visto que a festa já passava do que se chamava de sóbrio, foi la fora ver como estavam as coisas, olhar para a vizinhança, olhar para a arvore de frente a casa da sua mãe, resolveu respirar. Já fazia algum tempo que estava ali, absorto em pensamentos sentado à sombra da grande arvore, ouviu gritos ao longe, era uma das amigas de sua mãe que brigava com o marido e suplicava para ele parar de beber, Pedro não gostara nenhum pouco da entonação daquele homem e foi la ver o que estava acontecendo. Não pensava em violência, era um recém homem pacifico, de alma serena que cultivava boas leituras e boas conversas. O homem, porém, à sua casa, era de completa alma rude e de perfeita percepção que havia coragem suficiente em seu corpo para algumas atrocidades. Pensou em levar aquilo como brincadeira, mas o olhar de medo da sua mãe naquele instante já lhe traduziu. Perguntou o que estava acontecendo, obteve um nada como resposta, resolveu, em segundos, não ligar e voltou para o quarto, Fingiu ler, ouviu como sua mãe contornou toda a história para que a farra acabasse, ficou quieto em seu quarto e viu as coisas se concertarem. Prevaleceu o silêncio, resolveu tomar um banho e deixou seu livro em cima do sofá, quando voltou, encontrou sua mãe ao chão do lugar onde toda a bebedeira acontecera, fingindo ler o seu livro e maquiando a situação constrangedora. Pedro foi para o quarto se vestir e não saiu de la, lembrou do celular, mas não o ligou, correu para o computador, ligou o aparelho portátil e enquanto o programa iniciava buscou algo da cozinha para mastigar, percebera que a mãe estava a trancar o portão com o cadeado, coisa muito difícil de acontecer aquela hora, era cedo. Ficou ainda mais ligado. Dividia sua atenção entre o computador e o mundo por trás da sua parede, quando depois de alguns minutos, a noite já dizia oi, ouviu gritos de pânico e tensão vindos la de fora, apavorou-se e saiu correndo do quarto encontrou sua mãe na mesma posição que estava quando entrara no quarto, porém, o mesmo homem moreno, alto, com voz exaltada e  sua mulher loira, aos prantos, do lado. Pedro perguntou novamente o que estava acontecendo, não obteve resposta, sua mãe parecia não estar preocupada, mas ele não via sua cara. Foi quando o homem, que gritava ainda no portão, impedido de entrar, sacou uma arma, que Pedro não faz a mínima ideia de onde ele tirou e alternou a pontaria entre ele e sua mãe. Pedro enfraqueceu-se. Ouviu a voz irritante e estérica da mulher, pensou em mil coisas, principalmente em voltar, mas não ia deixar sua mãe sozinha e assim também seria atingido pelas costas, pois os homem poderia achar que ele pediria ajuda por telefone. A área externa da casa da mãe de Pedro, era muito grande tendo uma entrada para a lateral da casa, toda a sua frente era um portão grande, mas havia algumas paredes laterais na qual segurava o portão, Pedro decidiu correr para a parede lateral esquerda, o homem viu como uma ameaça, isso não durou 10 segundos, foi quando Pedro viu o rosto da sua mãe, que sorriu pacificamente sem mostrar os dentes, naquele momento, ele tentou fazer algo que nunca sentiu vontade, proteger sua mãe, suplicou pelo olhar que ela entrasse, a pressão era tão grande que logo se esvaiu em berros, foi quando o homem andou para o lado esquerdo do portão, enfiou o braço por entre as grades e apertou o gatilho, com o cano totalmente apontado para meu amigo Pedro, isso fez-lo ser atingido na garganta, no mesmo momento, sentindo o cheiro da bala que lhe beijara o pescoço e a dor do entranhamento em sua carne, virou-se para a mãe suplicando um ultimo pedido de proteção, antes que acontecesse algo pior, foi quando esta deu-lhe mais um sorriso sereno, entre toda a trepidação dos seus membros, virou o rosto para o livro e baixou a face fazendo encostar seu nariz no vinco que saía as paginas. O homem ainda em estado eufórico, puxou o gatilho mais três vezes, agora em direção a mãe de Pedro, sem pronunciar uma palavra, o grito histérica da mulher vendo duas das balas atingir diretamente a cabeça da sua amiga, cobriu o som dos disparos. Pedro, morrendo de dor sentiu a quentura do sangue a lhe cobrir o rosto, de um pano de chão à sua cabeça e de uma lágrima a cair do seu rosto. Usou o pano de chão para tentar estancar o ferimento, sentiu sua respiração forte e grânulos de areia a misturar no sangue grosso escorrendo. Viu sua mãe morrer num domingo em horário crepuscular. 

3 comentários:

  1. "e, no entanto, é somente um pensamento, por mais amedrontador que seja..."
    Edgar Allan Poe.

    Deu medo de ler....
    Ele estiga psicopatas, que nem no seriado the following.
    auauhauhauahahu

    Bom texto, parabéns!

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  2. Gostei do final. Interesante...

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