sexta-feira, 10 de maio de 2013

Pedro e sua TV - 02


     "O sol invadiu a sala, fez da TV um espelho, refletindo o que a gente esquecia"
                                                Marcelo Yuka.




Meu amigo Pedro havia passado a boa parte da noite acordado trabalhando em algo que ele gostava bastante, com relação a isso não media esforços, e Pedro era muito esforçado, sempre fizera suas atividades com gosto, poderiam não estar certas, mas a atenção era sempre muito grande. Neste dia Pedro levantou ansioso, era dia de um novo episódio da série que começara na semana anterior, – era meio de semana, mas ele sabia muito bem contornar qualquer situação, no caso se algo der errado por falta de tempo – ele não sabia se preparava algo para comer durante o programa ou se deixava tudo para depois. Enfim, decidiu fazer algo para comer durante o episódio! Pedro pensou em algo que fosse rápido, ele gostava de comer bem e não era qualquer ‘miojo’ que lhe acompanharia. Resolveu o que ia fazer e já foi logo colocando os ingredientes no fogo, no meio do preparo sempre dava uma olhada na hora tanto para tomar base do cozimento quanto para certificar-se de que já estava perto do inicio do programa, foi quando o momento chegara. Pedro não era o tipo de gente que deixava a TV ligada enquanto fazia outras atividades, também não gostava de programar, acabava perdendo o interesse pelo que ia assistir. Pedro não era de televisão, na realidade, ele era da leitura, porém aquilo que ia ver naquele dia fazia parte das suas leituras diárias e ele se sentiu muito atraído. Pedro morava numa casa pequena, poucos cômodos, poucos móveis, a sala era o maior cômodo, onde tinha uma TV a poucos centímetros do chão, um colchão no chão, de frente para a TV e o resto do piso cheio de livros empilhados, formando colunas deixando livres caminhos para transitar pela casa. Atraído pelo programa e ansioso para o próximo episódio, Pedro correu e foi ligar a TV, procurou o canal, ajustou o áudio, a imagem, o colchão, o travesseiro e o lençol, preferiu ficar deitado de mau jeito, quase sentado, com as costas encostadas na parede. Foi quando viu que passara tempo demais para o início do programa e o mesmo não começara. Enraiveceu. Não havia explicação, sem respirar, desligou a TV e foi em busca do seu computador para procurar alguma resposta para aquela situação, levantou-se, neste meio tempo viu seu reflexo passando na tela da TV, aquilo lhe chamara atenção e fê-lo voltar, sentou-se um pouco mais a frente do colchão, onde não conseguia encostar suas costas na parede. Ficou imóvel, admirando o reflexo, não a si mesmo, mas ao reflexo da tela em si, nunca havia percebido o quão interessante era a TV desligada. Ainda imóvel, olhando fixamente para o aparelho, sentado, com a coluna ereta, pernas cruzadas, estava absorto em pensamentos. Permaneceu. Era como uma magia, uma hipnose. De repente, Pedro notou que o seu rosto refletido na TV havia piscado os olhos, ficou sem entender e não procurou entender, não havia fechado os olhos em nenhum momento, ainda fixo, mas com a mente interrogando, Pedro viu a sua imagem na tela criar asas, sentiu uma dor cortar suas costas, não se mexeu, seu olhar curioso estava voltado para a tela, viu seu próprio corpo com asas enormes saindo de suas costas, tentou se mover para mais perto, mas aquelas membranas pesavam e isso o fez ficar ainda mais imóvel. Ficou se questionando como aquilo acontecera, esqueceu, e voltou seu olhar para as asas, chamava muita atenção, lembrou que um dia pensou em ter asas, mas não era daquele jeito, uma membrana fina e dura, ressecada, sem carne, com aparência de ossos grande e que pesava, incomodava, não era alivio como o de voar, passou muito tempo observando. Sentiu um incomodo e tentou se mover para uma melhor adequação, balançou a cabeça e percebeu em seu próprio corpo que não havia asas, nada de membranas, ele estranhou e voltou o olhar para a TV, ainda como magia, o seu movimento fez com que as asas desaparecessem. Percebendo a diferença do peso, sentiu um alivio vindo das costas e o reflexo da tela se transformar numa luz brilhante, estranhou, não havia ligado a TV, seus braços permaneceram imóveis a todo o tempo e os controles estavam no mesmo lugar. Pedro tinha um jeito único de arrumar suas coisas, herdado de familiares, de personagens de filmes, de livros, sua mesa tinha sempre uma toalha para proteção e dava um ar diferente na cozinha, não era detalhista, gostava de se divertir, usava a mesma por muito tempo, e a atual já estava por lá há bastante, mas agora coberta por fogo e fumaça que vinha da panela em cima do fogão deixada por Pedro para preparar sua comida. Ele ainda absorto na tela da TV, não demorou muito para perceber, já que agora nada mais era do que uma luz muito forte que refletia. Deu por si e correu, não havia tempo para pensar, sua mesa era de plástico e a toalha de proteção era de um pano muito fino que rapidamente fora engolida pelas chamas. Agindo por impulso, Pedro se jogou por entre a fumaça vinda da cozinha, tentando achar a porta do banheiro, onde encontraria a solução, encheu o balde com água pelo chuveiro no qual era muito devagar, ele não tinha tempo e aproveitou para tossir, além de procurar qualquer outra toalha que pudesse lhe proteger da inalação da fumaça. O balde encheu e antes de sair deixou a torneira da pia aberta para ir acumulando mais água, fez isso muitas vezes, deu trabalho, mas Pedro conseguiu conter as chamas. Por fim, respirou, viu o que realmente tinha acontecido, uma parte da sua mesa já não prestava mais, o seu fogão e a panela. Pensou em ter encontrado o seu dia mais desatencioso.

2 comentários:

  1. Dina querida, impressionada com sua criatividade, gostei bastante do texto, porém sentir dificuldade na leitura, não sei se por causa das letras brancas ou se foi o tamanho, ou a extensão da mesma.

    Parabéns!

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  2. Ahh Gracinha, peço desculpas!!
    Eu tava pensando nisso dia desses, vou procurar melhorar..
    Muito obrigada. =)

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